segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Record não vai aprender com Datena e insistirá no erro que pode piorar o já tumultuado bastidor da emissora

Por José Armando Vannucci:

A saída de José Luís Datena do “Cidade Alerta” (ou abandono, como muitos disseram nos corredores da Barra Funda) foi um duro golpe na Record e escancara definitivamente que tem muita coisa fora dos trilhos. O alto escalão da emissora ainda vai levar um tempo para se recuperar do soco que recebeu e quase colocou todos os projetos na lona. Muitos ainda não compreendem a atitude de Datena e ensaiam o que pode ser feito para revidar a traição numa espécie de vingança de menino.

A saída de Datena estava anunciada, mesmo que muitos se esforçassem para não aceitar o fato e acreditar que um documento assinado ainda vale alguma coisa na televisão. Isso é coisa do passado, quando se cumpriam contratos, promessas e uma palavra valia mais do que qualquer papel. Atualmente, com uma guerra cada vez mais intensa, as emissoras de TV jogam com seus profissionais, puxam de horário, tiram do ar, valorizam e desvalorizam a partir de seus interesses. Do outro lado do ringue, os mais espertos se defendem, cobram alto e criam dificuldades para manobras. É o que acontecerá na Record e na Band a partir da saída de Datena do “Cidade Alerta”. Qual o destino de Gotino, Márcio Campos e Faccioli, três profissionais que mudaram a rotina nos últimos 40 dias?

Erros desde o início

Quem acompanhou toda a história da contratação de José Luis Datena garante que eram claros os sinais de que a Record errou feio e não estava preparada para ressuscitar o “Cidade Alerta”. O alto comando da emissora mais uma vez acreditou que apenas um nome de peso é capaz de garantir o sucesso de uma atração e esqueceu de investir na base. Desde que entrou no ar, o “Cidade Alerta” foi obrigado a reprisar material de outros programas para ocupar o longo tempo destinado a Datena e não investiu em equipes próprias capacitadas para a realização de reportagens nervosas em plano seqüência e câmeras em movimento. O alto comando da Record acreditou que o helicóptero do comandante Hamilton era suficiente para garantir a curiosidade do público. Mais uma vez caíram na velha idéia de que a grife é garantia de bons resultados. Para não perder espaço e tempo, Datena estreou às pressas na Record com cenário improvisado, mostrando mais uma vez a fragilidade do negócio.

A Record errou, assumem alguns executivos, mas não aprenderá com este episódio. O alto comando da emissora ainda vai acreditar que a grife é mais importante, que o artista global vale mais do que a estrela da casa, que dinheiro é tudo na televisão e que o ataque sem planejamento é eficiente. O alto comando da Record não vai aceitar que errou. Será mais simples acreditar que foi traído por alguém bem pago.

O futuro

Ainda neste final de semana será definido o futuro do “Cidade Alerta”. Será que vale a pena continuar com o programa? Quem pode assumi-lo? As primeiras conversas nesse sentido apontam que Reinaldo Gotino é o nome mais forte para substituir José Luís Datena, mas há quem defenda a contratação de Roberto Cabrini ou a aposta em Marcelo Rezende. E há quem lute para que a Record esqueça o “Cidade Alerta”. Este será mais um erro, porque se isso acontecer, a emissora assinará definitivamente a declaração pública de que só consegue fazer alguma coisa de sucesso com a grife de outra empresa. Está mais do que na hora da Record aprender a planejar e agir de uma maneira mais madura.

Brigas internas

A saída de José Luis Datena com apenas 40 dias de contrato vai trazer a público toda a disputa de poder na Record. Na Barra Funda é muito nítido o jogo das vaidades e a briga para ver quem manda mais. Lá existem grupos bem definidos e interesses que se misturam. Quem tem poder não quer perder, quem não tem quer ganhar. E nesse jogo vale reunião em Miami, Santo Amaro e Barra Funda. Cada um com a oportunidade que consegue para defender seu interesse. A estrutura de comando já esteve muito próxima se mudanças e, no início do ano, circulava no mercado a informação sobre a troca de executivos nos cargos de confiança. Algo que não aconteceu, segundo pessoas muito próximas aos poderosos, porque promessas foram feitas no sentido de melhoria de audiência e faturamento. Não foi o que aconteceu, pelo menos com os índices. Desde janeiro, a Record está estacionada em São Paulo na marca dos 7 pontos na média/dia. A pressão tem aumentado mesmo porque houve a reação do SBT em alguns horários. Desde maio, o “Hoje em Dia” perde quase que diariamente para os desenhos do SBT e nos últimos dias de Datena, o “Cidade Alerta” ficou atrás do “Casos de Família”, um programa muito mais barato.

Por falar em números

O “Cidade Alerta” ressuscitou com a promessa de revolucionar a história da Record. Em sua estreia, Datena chegou a encostar na Globo e deu uma surra no SBT e na Band. Continuou com índices altos mais alguns dias e em julho começou na cair. Até o dia 27 deste mês, o “Cidade Alerta” apresentava uma queda de 13% em sua audiência, contra um crescimento de 7% do SBT. A pressão passou a ser cada vez maior, mas ninguém conseguiu enxergar que o problema estava na falta de estrutura, de reportagens desenvolvidas no formato ideal e que apenas o helicóptero com imagens de São Paulo era insuficiente.

No Rio de Janeiro a situação era pior. O “Cidade Alerta” muito paulistano derrubou a emissora no horário e, num efeito cascata, tirou audiência do “RJ Acontece”, “Jornal da Record” e “CSI”. Na capital fluminense a audiência da Record só começava a melhorar a partir de “Vidas em Jogo”, já no final da grade. Outro motivo para pressionar por mudanças no alto comando da rede que “só olhava (palavras dos executivos cariocas) para a realidade de São Paulo”.

Depois de tudo isso, é possível afirmar que a curta passagem de José Luís Datena mostrou muito mais do que a transferência de um profissional. O episódio mostra onde estão as fragilidades da Record e dá sinais claros de que o organograma pode mudar.

Veja o desempenho do “Cidade Alerta” em julho

José Armando Vannucci é colunista da Rádio Jovem Pan e autor do blog Parabolica

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